GALERIA DE INFORMAÇÕES SOBRE WICCA
A WICCA E BRUXARIA - Parte 1
Quando a cristianização aconteceu na Europa, a palavra Bruxaria (do inglês Witchcraft), que era anteriormente aplicada somente às práticas religiosas Pagãs européias de culto à Deusa, foi largamente utilizada para descrever qualquer pratica religiosa nativa existente antes do Cristianismo.
Com isso, todas as vezes que os inquisidores cristãos se deparavam com novas práticas religiosas que não sabiam como denominar davam a ela o nome de Bruxaria. Muitas e muitas pessoas de outros subgrupos como judeus, ciganos, curandeiros, cientistas foram condenadas à fogueira pelo crime de Bruxaria.
Isso trouxe uma confusão sobre ao que e quando a terminologia Bruxaria deve ou não ser utilizada.
Atualmente há uma confusão de termos e muitos afirmam que Wicca e Bruxaria seriam coisas distintas. Quem nunca ouviu o famoso ditado: “Todos os Wiccanianos são Bruxos, mas nem todos Bruxos são Wiccanianos”?
Para compreendermos o porque desta confusão de uso de termos, precisamos pensar um pouco no cenário Pagão da década de 50 e sua evolução a longo da história de nossa religião.
Lá, em meados da década de 50, falar sobre Bruxaria era considerado uma heresia e crime. Isso é compreensível em uma sociedade ainda influenciada por fortes preconceitos e conotações negativas atribuídas ao longo de processos de perseguições àquilo que se acreditava ser Bruxaria. Hoje, sabemos que na realidade muito disso era pura fantasia e invenção e que provavelmente a maioria das pessoas que morreram durante a Inquisição eram bons cristãos que incomodavam o pensamento da Igreja católica (a religião dominante e a lei) por algum motivo e que por isso precisavam ser banidas da sociedade. Então elas eram nomeadas de hereges e consequentemente Bruxas e condenadas à execução. Isso foi criando uma verdadeira programação social e assim surgiu o uso comum da palavra Bruxa para denominar os praticantes de todos os tipos de práticas espirituais, religiosas ou mágicas diferentes e estranhas às convencionais e aceitas: as cristãs.
Quando a última das leis contra a Bruxaria foi banida na Inglaterra em 1951 Gerald Gardner apareceu na cena afirmando que as Bruxas pré-medievais e medievais perseguidas, na realidade, eram praticantes da Antiga Religião da Europa. Esta religião teria sobrevivido clandestina através destas pessoas, que se encontravam nas florestas para celebrar seus Antigos Deuses Pagãos e que as muitas retratações e relatos atribuídos aos encontros de Bruxas, feitos na época da Inquisição e ligando-os a um culto demoníaco era, na realidade, uma deturpação promovida por motivos religiosos e políticos para denegrir a imagem da Bruxaria, a verdadeira religião dos antigos europeus. Afirmou, ainda, que esta prática teria sobrevivido com um novo nome, cuja raiz da palavra chegaria até a palavra Bruxaria (em inglês Witchcraft) e que o nome moderno para esta antiga Religão era Wicca.
Deixando as controvérsias sobre a veracidade das alegações de Gardner de lado, mas nos focando na história da evolução do uso comum das palavras Wicca e Bruxaria, pois é isto que nos interessa, no início, estas duas palavras eram vistas como sinônimas, usadas intercaladamente, representando um sistema mágico-religioso promovido por Gardner e muitos dos Bruxos que se tornaram populares na época.
A própria Janet Farrar, iniciada de Alex Sanders, disse em uma entrevista concedida exclusivamente à 3ª Conferência de Wicca & Espiritualidade da Deusa realizada em 2007, que o que o Alex Sanders fazia estava longe de ser o que hoje consideraríamos Wicca. Alex Sanders estudou Magia Cerimonial muito tempo antes de conhecer a Wicca e nela ser iniciado e encontramos várias incongruências em suas práticas. Quem já não viu suas famosas fotos dentro de um círculo de magia cerimonial com inscrições de nomes como Adonai, El Shaday e muitos outros dizendo que estava realizando um ritual Wiccaniano?! Pura contradição!
Ela afirma ainda que ele, como muitos outros, no alvorecer da Wicca, estavam praticando um mix de folclore Pagão europeu e de Magia cerimonial cabalística fortemente influenciada por ordens como a Golden Dawn, ainda muito influentes na época. Isso está distante dos caminhos da Wicca propostos por Gardner e aqueles caminhos que ela acabou por percorrer, se afastando cada vez mais de elementos judaico-cristãos para beber em fontes mais apropriadas ao espírito da Wicca: O Paganismo europeu autêntico, de bases puramente xamanísticas.
Assim, vemos que esta confusão sobre o emprego do termo Wicca=Bruxaria não é recente. No entanto, a diferença é que na década de 50 a maioria das pessoas queriam dizer que estavam praticando Wicca=Bruxaria e isso trouxe uma superexposição à Wicca com práticas completamente diferentes e esdrúxulas, que muitos começaram a criar uma separação artificial para os dois termos quando na realidade o que deveria ter sido combatido eram as práticas esquisitas denominadas Wicca=Bruxaria da época e que estavam distantes da verdadeira Arte.
Ao longo desse processo muitas formas diferentes de Wicca=Bruxaria surgiram, o que fez com que muitos não considerassem esses caminhos como formas de Wicca=Bruxaria válidos, pois eram levemente diferenciados do caminho considerado por muitos o "original": O Gardneriano. O que precisa ficar claro é que Gardner jamais disse que somente o que ele fazia era Wicca e afirmou repetidamente em seus livros que existiam outras pessoas que praticavam em grupo ou solitariamente esta forma de religião e pontuou diversas vezes que as tradições de fé destas pessoas poderiam ser diferentes da sua, pois a Bruxaria=Wicca ao longo de sua história teria se tornado uma religião fragmentada, com cada pessoa ou grupo tendo acesso a uma parte ou partes dela.
O que torna a Wicca=Bruxaria ainda mais difícil é o fato de haver diferentes "escolas" e sistemas. Não existe uma Wicca=Bruxaria única. Existe, sim, um corpo de conhecimento composto de tradições que comparativamente são tão variadas e diferentes quanto seriam os climas dos diferentes estados ou regiões de um país que compartilham traços em comum para que sejam considerados pertencentes a mesma nação.
Na Wicca=Bruxaria esses traços são simples de serem determinados: qualquer Tradição ou prática pessoal e solitária cuja cosmogonia reconheça a Deusa Mãe e o Deus Cornífero como princípios criadores da vida, observe tanto a Rede Wiccaniana quanto a Lei Tríplice, centre sua espiritualidade na Terra tendo como base os 4 elementos e possua um calendário litúrgico que se baseie na mudança dos ciclos sazonais e das fases lunares é Wicca=Bruxaria. Dentro disso, muitos elementos podem variar substancialmente, fazendo com que uma Tradição diferencie-se enormemente de outras.
O que precisa ficar claro aqui é a distinção entre uma Tradição ou prática pessoal específica dentro de uma religião maior e uma religião com os seus traços elementares e o que determina que indivíduos possam chamar-se ou considerar a si mesmos como membros e praticantes daquela religião. Assim, Wicca é a religião que engloba a Tradição Gardneriana, Alexandrina ou até mesmo uma prática pessoal e solitária específica e não o contrário. Poderíamos dizer, por exemplo, que o Gardnerianimo é subgrupo dessa religião, assim como o Dianismo, o Alexandrinismo ou o Georgianismo, e nenhuma dessas Tradições expressam a exclusiva identidade da Wicca, pois esta identidade é fragmentada.
Os elementos que fazem uma religião incluem um conjunto de crenças relacionadas a forma e natureza da divindade, dias sagrados, símbolos, uma história compartilhada e um conjunto de diretrizes aceitas. Esse critério pode ser descrito como tribal, o laço que liga as pessoas e cria uma comunidade que compartilha valores em comum, tradições, rituais e costumes através dos tempos. Hoje, a maioria dos ramos da Bruxaria de Paganismo e muitas das Tradições da Deusa, apesar de suas diferenças em relação aos nomes das Divindades e variações em cosmologia, compartilham esses critérios. Qualquer cristão que estiver viajando próximo a data da Páscoa pode esperar encontrar uma igreja em qualquer cidade, onde outros cristãos estarão celebrando a Páscoa. Da mesma forma, um Wiccaniano=Bruxo que esteja viajando para a Europa, Austrália, Espanha ou Brasil próximo a data de um solstício, equinócio ou dos Grandes Sabbats pode, em teoria, buscar por um Coven local e/ou por uma celebração pública onde ele poderá participar da cerimônia e se juntar a outros que acreditam na mesmo que ele. Dentro do ritual, ele poderá perceber que o tema e a estrutura da celebração do ritual será no geral, mas não especificamente, familiar, incluindo o lançamento de um círculo, invocação aos quadrantes e Deuses, cânticos, elevação e canalização de energia e confraternização, apesar das diferenças operacionais poderem ser altamente diferentes das suas próprias ou daquelas praticadas em seu grupo, Coven, Grove ou Círculo.
É precisamente e exatamente porque a Wicca=Bruxaria é uma religião que estes temas comuns podem ser reconhecidos e são familiares a qualquer praticante. Uma Tradição, por sua vez, é um corpo de conhecimentos e práticas que são passados para outros dentro da estrutura da religião ou que se desenvolvem espontaneamente ao longo da prática de nosso caminho e se tornam frequentes, no caso dos solitários. Mesmo que haja similaridade entre todas as demais, cada Tradição ou praticante solitário possui elementos de prática peculiares inerentes somente a si, com uma específica linhagem de iniciadores, instrumentos, práticas, cosmologia, conjunto de diretrizes e uma liturgia consistente que distingue aquele caminho ou prática pessoal de todos os outros.
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